segunda-feira, abril 21, 2003

- Papai, o que é Páscoa?
- Ora, Páscoa é ...... bem ...... é uma festa religiosa!
- Igual Natal?
- É parecido. Só que no Natal comemora-se o nascimento de Jesus, e na
Páscoa, se não me engano, comemora-se a sua ressurreição.
- Ressurreição?
- É, ressurreição. Marta, vem cá!
- Sim?
- Explica pra esse garoto o que é ressurreição pra eu poder ler o meu
jornal.
- Bom, meu filho, ressurreição é tornar a viver após ter morrido. Foi o que
aconteceu com Jesus, três dias depois de ter sido crucificado. Ele
ressuscitou e subiu aos céus. Entendeu?
- Mais ou menos ....... .Mamãe, Jesus era um coelho?
- Que é isso menino? Não me fale uma bobagem dessas! Coelho! Jesus Cristo é
o Papai do Céu! Nem parece que esse menino foi batizado! Jorge, esse menino
não pode crescer desse jeito, sem ir numa missa pelo menos aos domingos. Até
parece que não lhe demos uma educação cristã! Já pensou se ele solta uma
besteira dessas na escola? Deus me perdoe! Amanhã mesmo vou matricular esse
moleque no catecismo!
- Mamãe, mas o Papai do Céu não é Deus?
- É filho, Jesus e Deus são a mesma coisa. Você vai estudar isso no
catecismo. É a Trindade. Deus é Pai, Filho e Espírito Santo.
- O Espírito Santo também é Deus?
- É sim.
- E Minas Gerais?
- Sacrilégio!!!
- É por isso que a Ilha da Trindade fica perto do Espírito Santo?
- Não é o Estado do Espírito Santo que compõe a Trindade, meu filho,é o
Espírito Santo de Deus. É um negócio meio complicado, nem a mamãe entende
direito. Mas se você perguntar no catecismo a professora explica tudinho!
- Bom, se Jesus não é um coelho, quem é o coelho da Páscoa?
- Eu sei lá! É uma tradição. É igual a Papai Noel, só que ao invés de
presente ele traz ovinhos.
- Coelho bota ovo?
- Chega! Deixa eu ir fazer o almoço que eu ganho mais!
- Papai, não era melhor que fosse galinha da Páscoa?
- Era, era melhor, ou então urubu.
- Papai, Jesus nasceu no dia 25 de dezembro, né? Que dia que ele morreu?
- Isso eu sei: na sexta-feira santa.
- Que dia e que mês?
- ??????? Sabe que eu nunca pensei nisso? Eu só aprendi que ele morreu na
sexta-feira santa e ressuscitou três dias depois, no sábado de aleluia.
- Um dia depois.
- Não, três dias.
- Então morreu na quarta-feira.
- Não, morreu na sexta-feira santa ....... ou terá sido na quarta-feira de
cinzas? Ah, garoto, vê se não me confunde! Morreu na sexta mesmo e
ressuscitou no sábado, três dias depois! Como? Pergunte à sua professora de
catecismo!
- Papai, por que amarraram um monte de bonecos de pano lá na rua?
- É que hoje é sábado de aleluia, e o pessoal vai fazer a malhação do Judas.
Judas foi o apóstolo que traiu Jesus.
- O Judas traiu Jesus no sábado?
- Claro que não! Se ele morreu na sexta!!!
- Então por que eles não malham o Judas no dia certo?
- É, boa pergunta. Filho, atende o telefone pro papai. Se for um tal de
Rogério diz que eu saí.
- Alô, quem fala?
- Rogério Coelho Pascoal. Seu pai está?
- Não, foi comprar ovo de Páscoa. Ligue mais tarde, tchau.
- Papai, qual era o sobrenome de Jesus?
- Cristo. Jesus Cristo.
- Só?
- Que eu saiba sim, por quê?
- Não sei não, mas tenho um palpite de que o nome dele era Jesus Cristo
Coelho. Só assim esse negócio de coelho da Páscoa faz sentido, não acha?
- Coitada!
- Coitada de quem?
- Da sua professora de catecismo!!!

Texto recebido por email de autoria desconhecida.

Deus deve ser um chato...


Meu irmão diz que eu já era assim no segundo grau. Talvez, por eu sempre ter sido meio CDF... Eu, contudo, só fui perceber que eu era um chato que analisa tudo depois de entrar na faculdade.

Alguns chamam isso de senso crítico. Outros chamam de chatice.

O fato é que eu não consigo assistir a um telejornal sem pensar que "ah, ao invés de meramente uma nota, poderiam ter inserido algumas imagens nessa matéria" ou "Estão usando a trilha sonora do Titanic como fundo, mas que coisa!"... Ou, quando vejo um filme, não consigo deixar de, em determinados momentos, realizar uma crítica mental que vai aumentando a simpatia/antipatia que tenho pela obra...

O ruim da coisa é que às vezes perde-se o senso da diversão pura. Tudo vira um pouco objeto de reflexão, a vida inteira vira tema de monografia, sempre se tem um "comentário pertinente" a fazer.

Pensei nisso assistindo a 2 Perdidos Numa Noite Suja. Foi-me impossível não achar que o final do filme foi hiper-otimista, quase oposto ao da peça, apesar de muito parecidos. Era impossível não ir me apaixonando pela interpretação da Debora Falabella que realmente arrasou, a despeito de seu personagem ser mais chocante. E, por fim, não consegui me convencer de que ficou MELHOR mesmo Paco virar mulher. Achei que muita coisa se perdeu.

O quanto perde alguém que não sabe comentar?

sexta-feira, abril 18, 2003

Star Wars + Emprego + Maconha


Sonhei com isso.

Eu sou bem careta, bebo mal e mal (uma média de 300ml de cerveja por mês?), não fumo, nunca fumei, nunca injetei, nunca cheirei. Ok. Agora que isso está esclarecido, podemos tentar captar o significado do meu sonho: sonhei que pela primeira vez iria experimentar um trago de uma droga (Tenho 99% de certeza de que era um tipo de maconha).

Engraçado que no sonho eu não era neeeeeem um pouco neurótico a respeito. Não havia culpa. Havia apenas curiosidade e vontade. Parece-me estranho agora, pois posso dizer-lhes que genuinamente nunca tive VONTADE de fumar maconha... Até já tive oportunidade.

Pois bem. Sonhei que estava em algum ambiente futurista. Não era nenhum local que eu conhecesse de fato, mas era perto do meu trabalho. Era um ambiente branco, não muito amplo, bem iluminado, asséptico. Pode parecer um hospital, mas esteticamente se assemelharia mais a uma nave espacial bem clean... Algo como uma sala no planeta dos produtores de clones de Star Wars.

Alguém fumava maconha lá. Fumava de uma maneira muuuuuito esquisita. parecia mais que estava cheirando; utilizava-se de um aparelho futurista de ficção-científica onde era colocada uma substância branca e através da qual essa poderia ser fumada. A pessoa que fumava maconha (eu agora não sei identificar quem era) ofereceu-me e saiu. Eu fiquei lá fumando, até que minha supervisora, do trabalho, entrou no cubículo e, em tom de brincadeira, falou que maconha antes de entrar no trabalho podia dar justa causa.

Eu esperava ficar "no maior barato", mas só fiquei um pouco lerdo fumando maconha. E, indo para o trabalho, cruzei com um colega de trabalho que volta e meia me sacaneia - ele é maneiro - e que ficou fazendo troça de eu ir trabalhar chapado...

terça-feira, abril 15, 2003

Tudo o que resta são As Horas


Depois da festa, ainda terei de encarar as horas. E, enquanto não durmo, sentirei esperança ou angústia pelo tempo que passa. A solidão e a morte são as únicas certezas e, de certa maneira, são a mesma coisa. E, desafortunadamente, não sei lidar nem com uma nem com outra.

Quantos amigos eu tenho? Quantos ficariam comigo se eu enlouquecesse como Virginia Woolf? Quantos me visitariam se eu me tornasse um HIV soropositivo em condições terminais? Minha família pode morrer, a planta pode estragar, a solidão é a única certeza. E, naquele momento, por fugaz que seja, de solidão, encaramos as horas.

Eu assisti As Horas. Depois de todo mundo. Talvez por último.

Não se encontra a paz fugindo da vida, disse Virginia. Também disse que primeiro devemos amar a vida, e que só depois podemos descartá-la.

Antes que algum dia passem as horas, devo acertar as contas com meus fantasmas, dominar a língua e a morte da solidão, adivinhar a surdez e a solidão da morte.

A vida é toda muito triste e muito bela. E talvez beleza e tristeza não sejam coisas sempre tão distantes assim.

A beleza mais marcante é também a mais fugaz e a mais visível aos olhos perspicazes...

"There's so much beauty in the world." De que adianta, se ela não for vista?

É preciso fugir para o Canadá; é preciso voltar para Londres; é preciso dar um beijo apaixonado, seja de separação ou de recomeço, porque tudo é separação e recomeço. Tudo é reconstrução e desesperança. Tudo é angustiante e belo.

segunda-feira, abril 14, 2003

Bu!

sexta-feira, abril 11, 2003

Voltando à nossa programação normal




*** Desabafar é bom e necessário, mas é bom seguir adiante... ***

Papagaio II


Meu irmão (para o papagaio): Vamos lá, Jonas, fala! (Numa medonha imitação de voz de papagaio)"Tou com fome, Iran. Tou com fome, Iran! Tou com fome, Iran."
Papagaio: ...
Eu: Ai, Iran, só você mesmo para ensinar as coisas para uma ave.
Meu irmão (em voz de papagaio): "Me come, Iran. Me come, Iran. Me come, Iran!"
Eu (dando uns tapas): Tá maluco! Imagina se, entre uma oração e outra de mamãe, o Jonas fala um troço desses?

Meu irmão foi embora, rindo.

Não é que, dois minutos depois, Jonas falou "Iran"?

Meu novo conceito de blog musical


Muita gente odeia páginas da internet com trilhas sonoras em midi ou em mp3 ao fundo. Geralmente odeiam porque já ouvem um sonzinho próprio no rádio ou no Winamp e ficam de saco cheio quando uma intrusa da internet vem se meter nos seus ouvidos.

Assim que acabei deixando uma música no meu blog por escrito. Assim, sempre lembro dela, quando entro e não preciso encher o saco de ninguém.

A atual, Felicidade, de Tom e Vinícius, foi feita em finzinho da década de 60 para o filme Orfeu Negro. Adoro sua melodia, sua nota, sua sensualidade debochada.

E Parriot, para colocar uma mensagem na barra de baixo do navegador é só colocar o código abaixo no cabeçalho (entre e ) do código HTML da sua página:

Papagaio I


Eu e meu irmão na cozinha. Ele abaixado junto à gaiola de Jonas, o papagaio que tem aqui em casa. (Colocamos a gaiola na cozinha à noite por medo de gatos comilões noturnos que me venham de casas vizinhas para nossa área, à noite.)

Meu irmão: Olha o Jonas, que fofinho! Será que tem problema se eu beijar ele? (sic)
Eu: Credo!... Se você não se importar de pegar vírus e bactérias para umas mil doenças incuráveis...
Meu irmão: Puxa, então você nunca beijaria o Jonas?
Eu: Caraca, isso é altamente anti-higiênico!
Meu irmão: Ah, eu sempre beijo a cabecinha dele...
Eu: Putz! Essa cabeça dele que ele sempre esfrega contra os ferrinhos da gaiola onde ele tranqüilamente faz cocô? Que nojo!
Meu irmão: Eu não acho nojento. Nem mamãe. Ela até beija o Jonas no biquinho.
Eu: Eca! Acho que vou parar de beijar vocês...

quarta-feira, abril 09, 2003

Algo para distrair


No final do dia, algo bom. Excitante, até. Se fosse em outro blog, esse seria um episódio facilmente transformável num relato erótico. Prefiro, contudo, outra abordagem, mais tola, menos interessante.

Foi um homem alto, branco. Na rua. Subindo os degraus que me liberavam da passagem subterrânea, em Botafogo, rumo à rua da Passagem, eu o vi. Eu queria andar. Andar para pensar. Pensar para musicar. Contudo, o vi. E eu vi que ele me via. Por segundos apenas, mas vi.

Foi a primeira vez que percebi e fui percebido ao mesmo tempo.

Eu o ultrapassei, é verdade.

Mais a frente, na rua, eu peguei o celular. Não pensava no cara. Juro. Eu vi a hora e achei tarde. Pensei que era melhor desistir da andança e voltar e ficar naquele que me era o ponto de ônibus mais próximo. Pensei e fiz.

Ao dar meia volta, cruzei com ele, que vinha andando atrás de mim. Olhares aqui, olhares ali.

Ele ainda parou e fingiu telefonar. Eu pensei que poderia ir fingir telefonar no orelhão ao lado dele, mas não fui. Não fui um pouco por desânimo, um pouco por um compromisso que eu tinha, um pouco por me sentir emocionalmente vulnerável e não ver ali nada além de uma potencial aventura sexual.

Não fui e me arrependi um pouco. Talvez devesse ao menos ter tentado.

Pelo menos, me distraí.

Divórcio


Tenho raiva. Tenho amor. Tenho vazio.

Sob certos aspectos, ontem foi o pior dia da minha vida. Mas ninguém ficou sabendo. Ainda não. Eu não queria contar, pois ajudava a dar a impressão de que não era importante, de que não era bem assim.

Eu achava que tudo devia ser dessa forma mesmo. Fingir ser forte ajuda a fingir que não há problema. Tudo é bom do jeito que está. Fica mais colorido, até. E esses tons de negro até melhoram a decoração.

Só que dói, lá no fundo. Quando chega o dia da morte, dói. E não dá para pensar que foi melhor assim, na hora. Apenas pensamos que perdemos. É o final. It's the end, my friend. Chegamos ao fundo do poço e somos fracos, temos medos, temos vazios.

O dia de ontem matou 25 anos. Em 3 horas, consumiu-se o que adiou-se por 3 anos. Em 3 segundos, eu chorei o que eu elogiei por tanto tempo. "É melhor assim." E o quanto melhor, mais amarga a lágrima.

Estou com a Família em Desordem. Estou com o coração acorrentado. Não consigo mais diferenciar a Morte e o Morrer. E vejo que a hora da despedida é a mais cruel de todas, pois sofremos duplicadamente. Sofremos por aquilo que sempre tivemos e de que nos despedimos e sofremos algo mais dolorido ainda; sofremos a despedida do que não estava lá, sofremos a saudade da fuga do vazio, sofremos a impossibilidade da esperança do encontro, sofremos a despedida que nos faz ver que certas coisas nunca estiveram lá. Sofremos porque nos enganávamos antes, imaginando que o desastroso e o longínquo a qualquer momento se afiguraria afetuoso e fiel. E agora que o desastroso vai embora, leva junto o simulacro da beleza que havia e da nobreza que nunca existiu.

A rachadura veio; não sei chorar. As lágrimas que vieram eu posso contar. Cinco, sei, sete, oito.

Eu queria saber chorar mais.

terça-feira, abril 08, 2003

3 Pecados Gastronômicos


1 - A torta de chocolate e baba de moça servida no café do Centro Cultural da Justiça Federal. Custa a astronômica quantia de R$3,50 - sim, eu sou mão de vaca - mas é uma delícia.

2 - A torta de chocolate do Café Hum Espresso & Cia, no 4º andar do Rio Sul. A fatia custa 2 arus, é grande e hmmmmmm!...

3 - O Pastel de Nata do Cavé. É pequeno, custa R$1,90, mas, da cor à textura, do gosto à consistência, é perfeito, perfeito, perfeito!!! Em tempo, o Cavé Radiante fica na Rua Sete de Setembro, 137, no Centro do Rio...

Enquanto isso...


O Jô Soares entrevista um cara que foi a Saturno e viu que os saturnianos falam português e comem carne de dinossauros abduzidos da Terra.

A-ham.



ONDE QUE O JÔ ARRUMA ESSES TROÇOS???

Marketing de Guerrilha


Hoje tudo é marketing. E tudo é guerra. E mais, tudo é marketing de guerra.
Se passo na feira, eles vendem:
- Ei, amigo, quer uma camisa "Eu Amo o Iraque" por apenas cinco reais?
- Não.
- Ela é bonita, é barata, é a diversão das suas crianças..
- Não.
- Eu podia estar matando... eu podia estar roubando... Eu podia...
- EU NÃO QUERO A PORRA DESSA CAMISA DO IRAQUE! EU NÃO GOSTO DELA! EU NÃO GOSTO DO IRAQUE!
- E que tal essa camisa "Eu - coraçãozinho - Bush"? Ou essa: "Se o fogo é amigo, o extintor é tarado"?

Por outro lado, se leio o jornal, tem caderno especial só para a guerra. Sem contar a Madonna com seu clip.

Como é que a Globo ainda não relançou "O Clone" no Vale a Pena Ver de Novo?!? Não entendo...

Só sei que essa é a ocasião perfeita para se abrir - de preferência, no centro comercial Saara - a "Salim MegaStore" ou as "Lojas Arabianas". Seria alguma coisa de vários andares, bem grande, pronta para vender de tudo.

Já visualizo até a campanha de marketing.

Na TV, uma mulher com o rosto coberto por um véu meio transparente toda triste, sentada desolada numa cadeira.

"Você está a procura de elegância e sofisticação nesses tempos difíceis? A sua burka não deixa as pessoas notarem seu penteado novo? Está cansada de usar sempre as mesmas cores?"
(Imagem da mulher com o véu acenando afirmativamente com a cabeça triste)

"Então peregrine DJÁ até a Ibrahenner mais perto de você! O Aiatolá ficou maluco e cortou todos os preços pela metade! Se você pensa que Bagdá está bombando, é porque ainda não viu as nossas mini-burkas a preços promocionais!!!!"

(Imagem da mulher agora com uma mini-burka estampada com camelinhos que mostra metade dos seios dela.)

"E temos mais! Mostra pra eles, Khaled!"


"Se você ligar agora para o número que está na tela, você poderá comprar esta maravilhosa piscina modelo "Golfo Pérsico" e, ainda, levar um exército americano de plástico! Válido apenas para as primeiras ligações! Piscinas Golfo Pérsico - se não souber nadar, cave no fundo e ache petróleo!!!"




Por enquanto são apenas músicas e clips. Amanhã serão camisas e filmes. Aposto que ainda teremos algo como "A Casa dos Estadistas", para a qual Sílvio convidará Blair e Bush e fará com que todos procurem Saddam.

Enquanto isso, na vida dos livros


Começou com o "O que deu de errado no Oriente Médio", que vendeu trocentas cópias nos Estados Unidos após todo aquele rolo do 11 de setembro. Aqui no Brasil passou apagado...

Teve também o 11 de setembro do Noam Chomsky. E até aí morrem neves...

E a "Uma História dos Povos Árabes" nem se relacionava tanto aos últimos acontecimentos...

Contudo, agora, de uma tacada só, as livrarias recebem "Iraque - planos de guerra" e "Iraque - a Guerra Permanente", dois livros para falar mal das ações americanas relacionadas ao Iraque. O primeiro se centra mais na estratégia da Casa Branca e nos bastidores e antecedentes da guerra, enquanto que o segundo é uma entrevista com Tarek Aziz, um dos principais colaboradores de Saddam.

Ô, marketing editorial!... Na aba da guerra de ânimos entre anti-iraquianos e anti-americanos entram os marketeiros para ganhar muito, muito dindin...

Da última safra, a respeito de guerras, o melhor me parece ser o Fora de Controle.


Por falar nisso, não li até hoje o "Estação Carandiru", livro que anda entre os mais vendidos praticamente desde sempre... Aliás, esse nem deve ter sido um dos motivos para ele ser transformado em filme, né? ;-)

domingo, abril 06, 2003

Por entre brumas e trevas e silencios indivisos, avancei, sôfrego, pouco a pouco. Era fim da noite, quase dia seguinte, e o peso de todo um dia pressionava minhas costas e minha consciência. O maior desconforto é sentir o paraíso adiante e inacessível. E, bem na minha volta para casa, cada minuto parecia eterno e meu descanso parecia impossível.

Por entre brumas e trevas e emoções indefinidas, tropecei, louco. Todo fim de noite é manhã. Todo meu cansaço dobrava ao pensar na inércia do sol, na gravidade da minha vontade, no fatalismo da minha liberdade. O livre-arbítrio abre todas as portas para não levar a lugar nenhum. Onde estou? Estou entre brumas, trevas e silencios indivisos.

As brumas, trevas e razões enlouquecidas me açoitavam como chicotes no inferno. Duro é andar nas ruas antes de chegar ao lar. A escória está à espreita, próxima. Eu mesmo sou escória, mas é melhor esquecer. Só quero conforto; só quero meu lar iluminado com lâmpadas brancas, alvas, de halogênio. Aqui no frio eu sou nada. Aqui fora eu sou sujo.

Das brumas, das trevas e do indiviso sai a luz, a forma e a casa. Não chego a entrar no conforto, no lar e na fortuna de uma vida de enfado e arraso. Antes, vejo ao portão a fada dos meus sonhos, a senhora minha mãe, que chora sem parar, desconsolada.

Ela não precisa falar. Eu já entendo o que houve.

Você dá Esmola?


Parece uma enquete estúpida, mas eu gostaria de saber o que passa na cabeça das pessoas quando um garotinho de 6 anos, uma moça grávida vestindo farrapos ou um senhor manco e míope pedem dinheiro para dar comida à família, comprar um remédio ou simplesmente sobreviver.

Eu já tive uma fase em que eu dizia mais "sim" do que "não". Talvez desse dinheiro mais facilmente quando eu o recebia costumeiramente da Fundação Monetária Santíssima e Divina Mãe. Depois que eu comecei a administrar minha grana começaram as neuroses para controlar os reais. Ou talvez tenha aumentado o meu cinismo.

Cheguei à conclusão de que compaixão é a única coisa que pode ou não mover-nos a dar uma ajuda (i.e. uma esmola) a alguém. Quando você deixa de dar dinheiro a um velho, você não o está salvando da cachaça. Quando você não dá dinheiro a um menino de rua, você não está evitando que os pais o explorem para ganhar dinheiro sem trabalho. Quando você deixa sua carteira quietinha, não impelimos o governo a tomar uma atitude.

Tão somente não sentimos compaixão.

E aquela estória de dar comida quando pedem dinheiro realmente pode ser deprimente. Li em algum lugar que uma das coisas que nos torna humanos é nossa capacidade de desejar o supérfluo...

Dar ou não dar? Eis a questão.

Na fila para comprar uma casquinha no McDonald's uma criança se aproxima e tenta me vender chicletes que eu nunca vi na vida. Era um estágio intermediário, o da venda esmolada, onde recebemos algo em troca. O chiclete não me tinha a menor serventia. Comprei dez. E varri a culpa para debaixo do tapete.

O Oposto de Copacabana


Tudo que Carla Camurati deixou de fazer em seu "Copacabana", Eduardo Coutinho fez. E com muito louvor. Como num Big Brother realmente empolgante, Coutinho levou as câmeras para os apartamentos e para as intimidades dos mais variados moradores do Edifício Master.

O filme coleta depoimentos de velhinhos, solteiões, fofoqueiras, pessoas solitárias e, mais que tudo, gente comum. Ah, claro, gente que mesmo sendo comum é muito, muito esquisita. Descobri, afinal que as pessoas são estranhas. E ri - gargalhei - com depoimentos estranhos - como o da espanhola que diz que pobre não tem emprego porque não quer.

Contudo, as lentes de Coutinho não servem para ridicularizar. Aliás, o Coutinho se preocupa tanto com ética em documentário que chega quase a ser chato. (Um profissional ético, imagine!) No filme ele chega a dar profundidade e simpatia a pessoas por quem eu não esperaria sentir tais coisas.

Eu me amarrei na menina de Minas que faz programa. Quando o Coutinho pergunta como ela teve coragem de dar seu depoimento, eu me apaixonei por ela... E tem a moça quase-doidinha que me matava de rir quando não olhava direto para a câmera, me fazendo pensar no adjetivo "maluquinha" e, a seguir, utilizava as expressões mais intelectualizadas e incomuns possíveis...

Foi um filme delicioso!

Se quiserem, desconfiem do meu relato só um pouquinho. Aprendi a gostar muito do Coutinho com uma professora. Uma que, aliás, aparece no filme.

sábado, abril 05, 2003

Vida de estudante


Passei mais de mês tentando me inscrever sem conseguir, ameaçado a ter minha matrícula cancelada porque a universidade não oferecia a minha disciplina obrigatória. Consegui, contudo me matricular.

Entro na aula de projeto experimental feliz - irei aprender a fazer minha monografia, não irei? - e eis que surge um professor. Traz uma monografia cujo o tema/título é "Poltergeist e a comunicação no espiritismo".

Ao invés de falar de como se faz a monografia, ele passou uma hora e meia falando do fenômeno do poltergeist - no qual eu não acredito - e também de Jung, da alquimia, do tarô e de como a alma e toda uma gama de conceitos de mitologia espiritualista barata influencia a humanidade.


E pensar que eu tenho de acordar às 5 da manhã para ter uma aula-SPAM de ocultismo barato...

Vendaval de Crianças


Enquanto estou sentado em frente ao computador, meu irmão lê algumas revistas, enrolado na felpuda coberta vermelha dele. A um toque nela, lembro-me do meu cobertor branco de criança, que não era felpudo, certamente comprado na feira ou numa vendedora de costuras especiais do Nordeste, de locais serranos ou de outros recantos igualmente peculiares.

Era esse tal cobertor que eu levantava quando criança até a altura da minha cabeça, transformando-o numa cortina imaginária suspensa pelas minhas mãos que tinha por missão esconder meu corpo infante. Tratava-se de um ritual executado por mim e por meu irmão em todas as manhãs de domingo. Como era o dia em que meus pais dormiam até mais tarde, não podíamos sair de casa cedo para brincar sob o sol convidativo. Não devíamos acordá-los.

Então, ficávamos no quarto, de pé sobre nossas camas, uma ao lado da outra, e interpretávamos os mais variados papéis naquele teatrinho. Os personagens eram super-heróis, claro. Rolavam altas zoações nas nossas primeiras horas de domingo. Eu era o Batman, ele era o He-Man; eu era o Chapolim, ele era o Chaves... Isso quando eu não interpretava o "vendaval de crianças" - uma forma sofisticada e imaginativa de atropelar e cascuedar meu irmão fingindo que eu era milhares de crianças a passar por cima dele.

Ah, as delícias de ser um irmão mais velho tão mais novo que agora!...

Invariavelmente, nós fazíamos uma barulheira que acordava nossos pais. E eles se levantavam e vinham ralhar conosco. E então interrompíamos todo o teatro...

...por cinco minutos, tempo depois do qual tudo começava de novo...